sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Vitamina D em crianças e adolescentes - perguntas e respostas

vitamina D é muito importante para manutenção da saúde óssea. Sua deficiência pode causar raquitismo e osteomalácia em crianças e adolescentes. Dados americanos estimam que cerca de 15 por cento das crianças daquele país tenham algum grau de deficiência ou insuficiência da vitamina, podendo passar de 30 por cento em grupos de risco (leia a seguir). Isso justifica que medidas preventivas sejam tomadas de rotina.
Abaixo, algumas dúvidas frequentes sobre vitamina D durante a infância e adolescência...



1- Quais crianças apresentam maior risco de deficiência de vitamina D?
O leite materno é importantíssimo, especialmente para crianças menores  de 6 meses, pois é o único alimento. No entanto, a quantidade de vitamina D presente no leite é baixa (15 a 50 UI/litro) mesmo em mães com níveis sanguíneos adequados. Um bebê que mame 750 mL por dia, estará ingerindo apenas 10 a 40 UI de vitamina D. Logo, estão em risco de deficiência e devem receber 400 UI da vitamina na forma de suplemento diariamente.
Bebês prematuros ou nascidos de mães com deficiência de vitamina D apresentam risco ainda maior, pois nos últimos meses de gestação, eles fazem sua "poupança" de vitamina para as primeiras semanas de vida.
Outros grupos de risco são:
- crianças com tom de pele escuro ou que vivam em regiões de alta latitude  (mais distantes da linha do Equador), pois recebem menor quantidade de luz solar e sintetizam menos vitamina D.
- crianças vegetarianas, em dietas restritivas ou com doenças do trato gastrointestinal que prejudiquem a absorção de nutrientes.
- crianças obesas, pois o tecido adiposo sequestra a vitamina D.
- crianças em uso de certos medicamentos como anticonvulsivantes ou antiretrovirais.

2- Quais crianças precisam dosar a vitamina D?
A maioria das crianças não tem indicação de fazer exames de vitamina D. Precisam fazer exame de sangue as crianças em risco de deficiência (acima). Outros grupos, apenas conforme critério médico.

3- Quais os níveis normais de vitamina D para crianças?
Apesar de diversos estudos associarem falta de vitamina D a problemas de saúde como diabetes tipo 1, doenças imunológicas, inflamatórias e até mesmo câncer, ainda não há evidência que a suplementação possa ajudar na prevenção ou no tratamento. Logo, os níveis séricos são calibrados para prevenir doenças ósseas como raquitismo e osteomalácia. Os valores mais aceitos internacionalmente para a faixa etária pediátrica são:
- suficiente: maior ou igual a 20 ng/mL
- insuficiente: entre 12 e 20 ng/mL
- deficiente: menor que 12 ng/mL

4- Como prevenir a deficiência de vitamina D?
Como a exposição solar tende a ser irregular mesmo em zonas tropicais, toda criança com até 1 ano deve ingerir pelo menos 400 UI de vitamina D por dia. Após esse período até os 18 anos, a necessidade de vitamina D aumenta para 600 UI por dia. Crianças que consomem alimentos fortificados (leites, iogurtes, cereais) em quantidade apropriada não precisam fazer uso de suplementos.

5- Como é feito o tratamento da deficiência de vitamina D?
Quando diagnosticado, o quadro de deficiência é tratado através de suplementação com doses que variam de 2000 a 6000 UI por dia por período de 6 a 12 semanas. Uma dose de manutenção pós tratamento de 400 a 1000 UI por dia deve ser mantida por tempo indeterminado.

6- Como é feita a monitorização do tratamento?
Exames laboratoriais devem ser realizados após 2 meses do início do tratamento. Se a adesão e a resposta forem boas, o intervalo aumenta, conforme critério médico, para vários meses.

Fonte: Vitamin D insufficiency and deficiency in children and adolescents - UpToDate

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Doutor em Endocrinologia
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Por que as pessoas com obesidade tendem a recuperar o peso perdido?

Essa é uma pergunta que muitas pessoas que lutam constantemente contra o excesso de peso costumam fazer. Enquanto ganhar peso parece tão fácil, perder peso e manter o peso perdido a longo prazo geralmente requer um grande esforço. E por que isso ocorre?


Em primeiro lugar, a biologia da regulação do peso é extremamente complexa, pois o corpo tende a defender agressivamente suas reservas de gordura para aumentar as chances de sobrevivência do indivíduo. E isso ocorre através de muitos mecanismos biológicos sobrepostos, mas que podem ser resumidos a duas situações principais: adaptação metabólica e aumento da fome.

Temos uma região no nosso cérebro chamada hipotálamo que controla várias funções vitais importantes para a nossa sobrevivência, como sono, temperatura, sede, fome e saciedade. Acontece que o hipotálamo guarda em sua memória alguns padrões de normalidade que ele entende serem necessários para o bom funcionamento do nosso corpo, mesmo que esses padrões não sejam necessariamente aqueles que desejamos. Assim, quando uma pessoa faz dieta, o hipotálamo desperta seu mecanismo de defesa e manda sinais para que essa pessoa aumente o apetite e diminua o gasto energético para que, dessa forma, retorne ao peso de origem. Pesquisas recentes demostraram que, para cada 1 quilo de peso perdido nosso corpo compensa essa perda com o aumento do apetite em 100kcal/dia e reduz o nosso gasto energético em 30kcal/dia, o que realmente torna difícil a manutenção do peso perdido. Outro problema é que esse mecanismo parece não reduzir com o tempo e, infelizmente, ainda não chegamos a uma resposta para explicar porque o hipotálamo se adapta a um peso maior e acha que esse é nosso “padrão de segurança”. Recentemente um estudo publicado em uma revista especializada em obesidade, a Obesity, com participantes de uma competição americana para ver quem perde mais peso (Biggest Loser), analisou os participantes 6 anos após o término do programa e constatou que eles estavam queimando uma média de 500 calorias a menos por dia do que seria o esperado, ou seja, houve uma redução significativa do metabolismo dos participantes demonstrando que seus corpos estavam lutando contra a perda de peso. 

E qual seria a forma de conseguirmos vencer essa luta contra o nosso corpo na recuperação do peso perdido?

A resposta está na atividade física!! Para compensar esses mecanismos biológicos, diversos estudos já demonstraram que o exercício físico é fundamental na manutenção do peso perdido. Estudos que compararam pessoas que perdem peso e que mantem o peso perdido com aquelas que perderam peso e recuperaram o peso perdido, mostraram que as pessoas que mantiveram o peso faziam mais atividade física e eram mais ativas no seu dia-a-dia (usavam mais escadas, caminhavam mais e em maior velocidade, por ex.)

Um dos objetivos do estudo com os participantes do Biggest Loser foi exatamente esse, explorar como a atividade física está relacionada à perda e recuperação de peso perdido. Para isso os pesquisadores analisaram os participantes antes do programa, nas semanas 6 e 30 da competição e após 6 anos do término do programa. E o que os pesquisadores encontraram foi que aqueles que conseguiram manter parte do peso perdido tinham aumentado o exercício físico em 160% quando comparado à quantidade de atividade física do início do tratamento, sendo que a ingesta de calorias era igual nos dois grupos. Entretanto, durante a perda de peso inicial, a equação foi diferente e a diferença de peso entre os competidores que emagreceram mais foi atribuída ao número de calorias que eles cortaram de suas dietas, sendo que a quantidade de exercício não distinguiu entre aqueles que perderam mais ou menos peso. Esses achados são compatíveis com os de outros estudos que mostram que o efeito mais importante do exercício é realmente para ajudar na manutenção do peso perdido, parte mais difícil no tratamento da obesidade.

Em resumo: manter o peso perdido não é uma tarefa fácil, pois é preciso lutar contra mecanismos adaptativos do corpo que surgem para que se recupere o peso anterior. Por isso a atividade física é fundamental para o sucesso na manutenção da perda de peso, e pode ser necessário um aumento de volume do exercício físico a longo prazo para que se consiga manter os bons resultados. 

“O alimento consumido é o principal determinante da perda de peso inicial. E a atividade física é a chave para sua manutenção” 

(Rena Wing, fundadora do National Weight Control Registry)


FONTES
1. Increased Physical Activity Associated with Less Weight Regain Six Years After “The Biggest Loser” Competition
Jennifer C. Kerns, Juen Guo, Erin Fothergill, Lilian Howard, Nicolas D. Knuth, Robert Brychta, Kong Y. Chen, Monica C. Skarulis, Peter J. Walter, and Kevin D. Hall. Obesity (2017) 25, 1838–1843
2. How Strongly Does Appetite Counter Weight Loss? Quantification of the Feedback Control of Human Energy Intake
David Polidor, Arjun Sanghvi, Randy J. Seeley, and Kevin D. Hall. Obesity (2016) 24, 2289-2295
3. Persistent Metabolic Adaptation 6 Years After “The Biggest Loser” Competition
Erin Fothergill, Juen Guo, Lilian Howard, Jennifer C. Kerns, Nicolas D. Knuth, Robert Brychta, Kong Y. Chen, Monica C. Skarulis, Mary Walter, Peter J. Walter, and Kevin D. Hall. Obesity (2016) 24, 1612-1619


Fernanda M. Fleig
Médica Endocrinologista
CREMERS 33785 RQE 28970
https://www.facebook.com/fernanda.endocrinologista/

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Bebidas alcoólicas e diabetes




As festas de final de ano estão chegando e, para alguns, a oportunidade de consumo de álcool aumenta. Mas afinal, pessoas que têm diabetes podem ingerir bebidas alcoólicas? Na maioria das vezes a resposta é sim, mas sempre com cuidado. Na prática, o álcool sempre diminui a glicose no sangue por diminuir a produção de glicose pelo fígado. Alguns poderiam pensar que então até seria bom consumi-lo para manter o diabetes controlado, mas isso não é verdade. A redução da glicose causada pelo álcool não é previsível e geralmente ocorre de forma inesperada, aumentando o risco de hipoglicemia. Além disso, o álcool potencializa alguns medicamentos usados para tratar o diabetes, como as sulfonilureias (glibenclamida, gliclazida, glimepirida) e a insulina, o que também aumenta o risco de hipoglicemia.

A maioria das hipoglicemias causada pelo uso de álcool no diabetes é tardia e ocorre após 6 horas do consumo do álcool. Isso explica a ocorrência de hipoglicemia na madrugada após o consumo de bebida alcoólica durante a janta ou na balada. Dificilmente a hipoglicemia acontece logo após o consumo da bebida alcoólica, exceto se não se alimentou de forma suficiente.
Além de ter efeito direto de reduzir a glicose, o consumo de bebidas alcoólicas diminui a percepção dos sintomas de alerta da hipoglicemia e diminui a resposta hormonal que o organismo normalmente tem para se proteger da queda de glicose. E acaba havendo uma soma dos efeitos do álcool com os da bebida alcoólica. Isso é particularmente importante nos adolescentes com diabetes tipo 1, que acabam consumindo álcool e não se alimentam corretamente, deixando de perceber o risco que estão correndo. Não é incomum que ocorra hipoglicemia quando estão dormindo e ainda sob efeito sedativo do álcool. A dica é sempre se alimentar. Ao chegar em casa, antes de dormir, faça um lanche reforçado.

O risco de hipoglicemia vai aumentando com o aumento da quantidade consumida de álcool. Quanto mais álcool, maior o risco. O limite de ingestão diária recomendado de álcool é de (02) duas porções ao dia para homens e (01) uma porção para mulheres. Uma porção equivale a 360 ml de cerveja (1 lata pequena), 45ml de destilados ou a 150 ml de vinho (1 taça). É claro que depende da tolerância de cada pessoa. Mesmo a cerveja, que contém carboidratos, causa o mesmo risco de hipoglicemia, pois o carboidrato consumido é rapidamente utilizado e não sustenta a glicose por muito tempo (lembrem que a hipoglicemia relacionada ao álcool é tardia!). Isso também explica o pico de glicose alta nas primeiras horas após o consumo da cerveja ou mesmo do vinho. Mas como as pessoas são diferentes, o efeito do álcool pode variar bastante.

Embora vários estudos sugiram que o consumo de doses baixas de álcool seja benéfico para a saúde do coração, não recomendo o seu consumo com esse intuito. Acho que os riscos e prejuízos do consumo frequente de bebidas alcoólicas pesa mais na balança. E por falar em balança, alerto que o álcool só perde em calorias para a gordura e é, portanto, bastante calórico. Sempre que consumir uma bebida alcoólica, lembre que está ingerindo algo que sempre facilitará o aumento do seu peso e consuma de forma consciente. Se quer emagrecer, não consuma álcool em excesso!

Como prevenir os efeitos indesejados do álcool para quem tem diabetes? Primeiro, informe-se sobre os riscos e se decidir consumir, o faça de forma consciente. Segundo, sempre alimente-se! Por último, monitore atentamente a sua glicemia pela ponta de dedo ou pelo sensor pelo menos nas próximas 6 horas após o consumo de bebidas alcoólicas.

Finalmente, para quem tem diabetes, não recomendo o consumo de álcool se: 1) o diabetes está descompensado, 2) se tem tendência a ter hipoglicemias 3) se há presença de complicações do diabetes, principalmente a doença renal, cardíaca e a neuropatia e 4) se há doença gordurosa do fígado (esteatose), que é muito comum associada ao diabetes. Nessas situações, o consumo do álcool aumenta muito a ocorrência de hipoglicemia grave, com perda de consciência, e também pode piorar a evolução das lesões, como na neuropatia e na esteatose. Aproveite as festas de final de ano sem excessos. Afinal, um novo ano, cheio de oportunidades, está prestes a chegar.

Referências:
1. Effects of Alcohol on Plasma Glucose and Prevention of Alcohol-induced Hypoglycemia in Type 1 Diabetes – A Systematic Review with GRADE. Tetzschner R, Nørgaard K, Ranjan A. Diabetes Metab Res Rev. 2017 Nov 14.
2. Substance Use Disorders among Patients with Type 2 Diabetes: a Dangerous but Understudied Combination. Walter KN, Wagner JA, Cengiz E, Tamborlane WV, Petry NM. Curr Diab Rep. 2017 Jan;17(1):2.




Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086
www.dreduardocamargo.wordpress.com

domingo, 3 de dezembro de 2017

Avaliação dos incidentalomas de adrenal através de exames de imagem

Os incidentalomas são lesões descobertas ao acaso em exames solicitados por outro motivo que não seja a avaliação das glândulas adrenais. Por exemplo: o médico solicita uma tomografia para avaliar o fígado e o exame acaba mostrando um nódulo na adrenal esquerda do qual não se desconfiava (figura abaixo).



A descoberta de um incidentaloma levanta duas questões que vão determinar o tipo de avaliação e a necessidade de tratamento:
1 - A lesão é maligna?
2 - A lesão secreta hormônios?
Neste texto, vamos responder ao primeiro questionamento.

Felizmente, a grande maioria dos incidentalomas de adrenal são benignos. Estima-se que apenas  2 a 5 por cento dos nódulos sejam carcinomas (câncer) de adrenal e 0,7 a 2,5 por cento sejam metástases de outros tumores para esta glândula.
Os exames de imagem, com destaque para a tomografia computadorizada, podem ajudar a estimar o risco de uma lesão na adrenal ser maligna. Através do chamado fenótipo da imagem, isto é, das características mostradas pelo exame, dá para ter ideia da natureza do nódulo. A seguir, as principais características de imagem das massas adrenais mais importantes.

Adenomas benignos

Costumam ser redondos, homogêneos e com contorno liso e bem delimitado. O diâmetro normalmente é menor que 4 centímetros. Por serem ricos em gordura, apresentam densidade baixa na tomográfica (< 10 HU), além de eliminarem rapidamente o contraste (washout rápido).

Feocromocitomas

São lesões originárias das camadas mais profundas da adrenal e podem produzir adrenalina e seus derivados causando pressão alta de difícil controle. Por serem lesões altamente vascularizadas, apresentam densidade alta (> 20 HU) e eliminação lenta do contraste na tomografia. O tamanho é bastante variável e podem acometer ambas as adrenais ao mesmo tempo. Em alguns casos, a ressonância magnética pode ajudar no diagnóstico.

Carcinoma adrenocortical

O câncer de adrenal costuma ser unilateral, ter tamanho maior que 4 centímetros, além de ser irregular na forma e na textura. Podem ser vistas áreas de necrose, hemorragia ou calcificações neste tipo de tumor. Assim como os feocromocitomas, também apresentam densidade alta e washout lento na tomografia. Em alguns casos, também podem ser vistos invasão de órgãos próximos e/ou evidência de metástases.

Metástases na adrenal

Frequentemente acometem ambas as glândulas e são bastante heterogêneas. A alta intensidade e eliminação lenta do contraste são evidenciados pela tomografia, já que são lesões bastante vascularizadas. Em alguns casos, a ressonância magnética e o tomografia por emissão de pósitrons podem ser necessários para ajudar no diagnóstico, especialmente quando não o tumor de onde as metástases se originaram não foi localizado.

De uma maneira geral, as lesões com características de adenomas benignos e que não são produtoras de hormônios podem ser acompanhadas clinicamente. Já os tumores suspeitos de feocromocitoma ou de carcinoma adrenal, além dos adenomas com produção de hormônio, são tratados através de cirurgia.



Fonte: The adrenal incidentaloma - UpToDate On Line

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Batata yacon: vale a pena investir?

Volta e meia algum alimento ganha a alcunha de “super”. Diariamente somos bombardeados com informações sobre alimentos ditos funcionais. A batata yacon, já há algum tempo, divide os holofotes com goji berry, chia e companhia limitada. Mas vale a pena investir nesse tubérculo pensando em melhorar a saúde?


A batata yacon (Smallanthus sonchifolius) vem da Cordilheira dos Andes. Foi introduzida com sucesso no Brasil em 1994, por ser muito adaptável a diferentes condições de clima e solo. O interior do estado de São Paulo é o maior produtor nacional do tubérculo.
Uma peculiaridade desta batata é seu alto valor nutricional. Diferente de outros tubérculos que armazenam energia na forma de amido, a yacon guarda carboidratos na forma de frutooligossacarídeos: FOS para os íntimos. Nós não conseguimos digerir os FOS, que acabam sendo usados como alimento pelas bactérias do intestino. Toda substância que estimula o crescimento de bactérias benéficas pode ser chamada de prebiótica. Ponto para a yacon! A proliferação destes microrganismos tem o potencial de trazer benefícios à saúde. Além de melhorar o funcionamento do intestino, ajudam a proteger de infecções e modular nosso sistema imunológico.
Além dos FOS, outras vantagens nutricionais da batata yacon são seu baixos valor calórico e índice glicêmico, já que é rica em água (até 90% do peso) e em fibras (FOS). Estas características são interessantes especialmente para quem precisa enxugar alguns quilos ou domar a glicose no sangue.
Não há como negar que se trata de um alimento com perfil interessante. Mas se eu estiver acima do peso ou com diabetes, vale a pena investir na yacon?
Depende! Obesidade e diabetes são doenças multifatoriais. São causadas por hábitos alimentares inapropriados e pouca atividade física, além de fatores genéticos. Não é o consumo isolado de um único alimento que vai prevenir ou tratar estas doenças. Além disso, não há estudos suficientemente robustos que justifiquem o uso rotineiro da “batata dos Andes” com estes objetivos.
Para quem quiser experimentar, o sabor e a textura são parecidos com de uma pera. A yacon pode ser consumida em saladas, sucos ou mesmo in natura, dentro de uma dieta equilibrada e de uma rotina de atividades físicas regulares. Caso o acesso a este alimento não seja fácil, dá para substituir por outros que tenham propriedades parecidas. Beterraba, alho, cebola, tomate, banana e trigo também são ricos em FOS.

Fonte: Desmistificando dúvidas sobre alimentação e nutrição : material de apoio para profissionais de saúde / Ministério da Saúde, Universidade Federal de Minas Gerais. – Brasília : Ministério da Saúde, 2016.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Vamos conversar sobre o glúten?


O glúten é um nome geral dado às proteínas encontradas em cereais como trigo, centeio, cevada (chamados de "The Big 3"), aveia e triticale – um grão híbrido resultante da mistura do trigo e do centeio. A aveia é mantida na categoria de cereal que contem glúten, embora essa posição seja questionada. O problema é que a maior parte da aveia disponível sofre contaminação decorrente da proximidade da plantação do trigo, centeio ou cevada. Quando pura, deve constar no rótulo "livre de glúten" e pode ser consumida por algumas pessoas intolerantes ao glúten. Mas qual a função do glúten?

Ele é responsável por dar a viscosidade, dar a "liga" necessária para dar forma ao alimento, além de melhorar a sua palatabilidade. Por isso um dos motivos de se sovar uma massa ao fazer um bom pão é ativar essas propriedades do glúten. Além da proteína, os alimentos que contém glúten são altamente ricos em carboidratos, fibras, vitaminas do complexo B, ferro, cálcio e magnésio. Estão incluídos nesse grupo pães, massas, bolos, bolachas, cerveja, cereais, molhos e muitos outros. Chamo a atenção que os alimentos que contém glúten são importantes fontes nutricionais e não há nenhum motivo para tirá-los da dieta, como se tem defendido por alguns, exceto se há uma intolerância real ao glúten. Vejo as pessoas, incluindo alguns profissionais de saúde, com uma visão muito distorcida sobre o assunto. Pior, tenho visto diagnósticos de intolerância ao glúten feito por exames questionáveis e sem nenhuma comprovação científica, como "testes da unha ou do cabelo" e outras tantas invenções para se criar doenças que não existem e ganhar dinheiro. Vamos esclarecer esse assunto?

Só existem 2 situações em que o glúten pode fazer mal à saúde: 1) quando se consome em excesso os alimentos que contém glúten e 2) quando se tem uma das chamadas "Desordens Associadas ao Glúten". No primeiro caso, o consumo excessivo de alimentos que contém glúten obviamente resulta em um exagero de consumo de carboidratos, o que sabidamente resulta em maior ganho de peso. Portanto, nesse caso não é o glúten o "vilão" e sim os hábitos alimentares. Quando se faz uma dieta sem glúten para emagrecer, se tira da dieta esses alimentos, além de se controlar  o consumo de gorduras. Na verdade se reduz a quantidade de calorias diárias, o que resulta em redução de peso. Não se engane, não é a retirada do glúten que emagrece e sim a reeducação alimentar. A maioria das pessoas que dizem que glúten causa "barriga" e depois de cortá-lo emagreceram se dão por conta que antes comiam muito mais do precisavam. Ah, podem ficar tranquilos, o glúten também não "gruda" os seus intestinos!

Na segunda situação, sobre as Desordens Associadas ao Glúten, vou utilizar as informações de um recente artigo da Associação Italiana de Gastroenterologistas e Endoscopistas Hospitalares (AIGO), publicado em novembro de 2016 (1). Existem doenças em que realmente não se pode consumir o glúten, que são 3: 1) a Doença Celíaca, 2) a Alergia ao Trigo e 3) a Sensibilidade ao Glúten  Não-Celíaca. Todos esses diagnósticos devem ser feitos por um médico com experiência nessa área, ok?

A  Doença Celíaca é uma doença auto-imune e herediária, isto é, o corpo forma defesas (anticorpos) contra as células da mucosa do intestino quando elas tem contato com o glúten. Essa reação auto-imune acaba inflamando e atrofiando a mucosa do intestino. Nessas pessoas, obrigatoriamente há uma predisposição genética para a doença aparecer. Acomete cerca de 1% da população e o grupo de risco para ter a doença inclui a) pessoas que tem familiares em primeiro grau (pais, irmãos ou filhos) com doença celíaca, b) pessoas com outras doenças auto-imunes, principalmente diabetes tipo 1 e doença de Hashimoto (doença auto-imune da tireóide) e c) pessoas com determinadas alterações genéticas (síndrome de Down e síndrome de Turner). Geralmente se manifesta por diarreia ou alteração do hábito intestinal, emagrecimento inexplicado ou, em crianças, atraso do crescimento; cólica, desconforto e estufamento da barriga, gases, azia. Pode causar má absorção de nutrientes, resultando em cansaço, desnutrição, deficiência de vitaminas e minerais, anemia e até infertilidade. O diagnóstico correto é feito pela dosagem dos anticorpos (principlmente o chamado anticorpo anti-transglutaminase) e por biópsia do intestino delgado via endoscopia. Portanto, se alguém disser que você tem Doença Celíaca fazendo um teste ‘da unha’, desconfie e questione.

Na Alergia ao Trigo, o nosso sistema imunológico é ativado logo que o nosso organismo tem contato com o cereal, desencadeando uma reação alérgica ao alimento. Embora os outros cereais que contém glutem possam também causar a alergia, é mais comum com o trigo. Não é uma doença frequente, mas nas pessoas que tem,  os sintomas variam desde rinite, asma (geralmente se tem exposição no mauseio da farinha de trigo, como em padarias), urticárias pelo corpo, diarreia e cólica. O diagnóstico é difícil, não tem uma exame que com certeza comprove, embora a maioria das vezes se pode dosar o anticorpo (chamado de IgE).

No caso da Sensibilidade ao Glúten  Não-Celíaca, é um pouco mais complicado. São pessoas que não são celíacas e não tem alergia, mas apresentam intolerância ao consumo do glúten. Estima-se que cerca até 13% da população apresente e é mais frequente em mulheres entre 30 e 40 anos. Os sintomas são parecidos com a Doença Celíaca, mas não se detectam anticorpos e/ou a biópsia do intestino é normal. Eles surgem quando se consome alimentos que contém glúten. Não existe um exame específico para fechar o diagnóstico. Além disso, muitas pessoas já vem restringindo o glúten, na maioria da vezes de forma incompleta, o que atrapalha a avaliação. A primeira coisa é descartar a Doença Celíaca e a Alergia ao Glúten e para isso é preciso que a pessoa esteja comendo esses alimentos por pelo menos 2 semanas, pois senão os exames vem "mascarados". Feito isso, se faz uma restrição padrão e, na sequencia, uma reintrodução do glúten para observar como a pessoa se sente.

Como podem observar, não basta simplesmente cortar o glúten da dieta. É preciso entender como ele realmente age em nosso corpo, evitando modismos e restrições desnecessárias. A meu ver, restringir sem necessidade pode causar alterações nutricionais, um consumo compensatório de gorduras, deficiências de micronutrientes e distúrbios do comportamento alimentar (como compulsão, anorexia e bulimia). É preciso pensar que o problema pode não ser o glúten, mas o consumo de alimentos em excesso. Se você percebe algum sintoma, não restrinja por conta, pois você pode atrapalhar e atrasar o diagnóstico de uma doença importante. Questione sempre que for recomendado restringir o glúten da sua dieta e sempre procure um médico. Afinal, lembre-se que se todo mundo tem um pouco de médico, todo mundo também tem um pouco de louco.

Fonte:
Elli L, Villalta D, Roncoroni L, Barisani D, Ferrero S, Pellegrini N, Bardella MT, Valiante F, Tomba C, Carroccio A, Bellini M, Soncini M, Cannizzaro R, Leandro G. Nomenclature and diagnosis of gluten-related disorders: A position statement by the Italian Association of Hospital Gastroenterologists and Endoscopists (AIGO). Dig Liver Dis. 2016 Nov 4. pii: S1590-8658(16)30782-4. doi: 10.1016/j.dld.2016.10.016.

Dr. Eduardo Guimarães Camargo
Médico Endocrinologista
CREMERS 23.404 - RQE 17.086

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Hipertireoidismo em crianças e adolescentes

Disfunções na tireoide não são exclusividade dos adultos. A glândula dos pequenos também pode ser afetada pelos mesmos problemas. Alguns sinais e sintomas são os mesmos em todas as faixas etárias. Outros, especialmente os relacionados ao crescimento e desenvolvimento, são peculiares em crianças e adolescentes. Vejamos o que pode acontecer em um quadro de hipertireoidismo...



Chamamos de hipertireoidismo a produção de hormônios em excesso pela tireoide. Não confunda com hipotireoidismo, que é o mal o funcionamento da glândula. A estimativa é que uma em cada 100.000 crianças menores de 15 anos desenvolva hipertireoidismo a cada ano. Meninas, principalmente durante a adolescência, tendem a ser mais acometidas. O efeito dos hormônios femininos durante a puberdade é a explicação, já que doenças autoimunes da tireoide são mais comuns em mulheres. Aliás, a doença de Graves, causada por anticorpos que estimulam a produção dos hormônios tireoidianos, é a causa mais comum de hipertireoidismo em crianças e adolescentes, contabilizando 96 por cento dos casos. Pacientes com síndrome de Down apresentam maior risco para doença de Graves.
Os sintomas clássicos de hipertireoidismo são:
- aumento do tamanho da glândula tireoide (bócio).
- tremor fino, perceptível especialmente nas mãos quando se estende os dedos.
- olhar fixo, brilhante e com as pálpebras retraídas.
- coração acelerado e palpitações.
- perda de peso involuntária mesmo com a ingestão de alimentos aumentada.
- pele fina, quente e com aumento do suor.
- diminuição da força muscular, perceptível principalmente na musculatura proximal, que torna mais difícil subir escadas ou levantar de assentos próximos ao chão.
- aumento da velocidade do trânsito intestinal, que resulta em mais idas ao banheiro para fazer cocô e, em alguns casos, diarreia.
- orbitopatia, que é a inflamação dos tecidos que envolvem o globo ocular, em alguns casos de doença de Graves.
Além disso, o excesso de hormônios tireoidianos acelera a maturação das cartilagens de crescimento, fazendo a criança crescer mais rápido do que o esperado. Este sinal pode passar despercebido, principalmente se a doença é leve e tem curta duração.
O desenvolvimento puberal não costuma ser afetado pelo hipertireoidismo. No entanto, meninas que já tiveram a primeira menstruação (menarca) podem deixar de ovular. Isso leva a atrasos ou mesmo a interrupção completa do fluxo menstrual.
Por fim, crianças com hipertireoidismo, especialmente as menores, tendem a apresentar mais oscilação do humor e distúrbios do comportamento que os adultos. A atenção diminuída, a hiperatividade e problemas no sono podem prejudicar o aproveitamento escolar e são frequentemente confundidos com TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). Crianças menores de 4 anos também podem apresentar atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
Na suspeita de hipertireoidismo, crianças ou adolescentes deverão ser avaliados por médico endocrinologista. O diagnóstico pode ser feito através de exames de sangue (TSH, T4 livre, T3 e anticorpos). Em alguns casos, também são necessários exames complementares (ecografia ou cintilografia da tireoide).



Fonte: Clinical manifestations and diagnosis of hyperthyroidism in children and adolescents - UpToDate OnLine

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
CREMERS 30.576 - RQE 22.991